Aquela senhora tradicionalíssima morava no mesmo prédio há 40 anos. Uma velhinha adorável. Vivia em seu aconchegante apartamento rosa, quente e com cheiro de ração de gato. A mobília tinha também quatro décadas, assim como o encanamento e toda a rede elétrica.
O gato roçava-lhe as pernas ás cinco da manhã e ela acordava, vestia o robe, abria as cortinas estampadas e empoeiradas, deixando entrar todo o calor do centro da cidade.
Arrumava a cama, os dois lados.
A manhã passava lenta. A velhina cozinhava e colocava dois pratos na mesa.
Dois garfos, duas facas, dois copos.
No dedo, estava sempre uma velha aliança, aquele anel dourado e pesado, quase meio século de existência.
Vivia fixada na imagem do falecido. O homem de sua vida.
Se fora da Terra há anos, mas para aquela senhora ele era ainda o Senhor, meu esposo. Era o único, derradeiro, para quem ela haveria de olhar sempre.
Ela desejava "bom dia, querido" e perguntava ao léu a que horas jantariam.
O banheiro tinha duas toalhas, os chinelos do falecido estavam sempre ao pé da cama e na hora do chá, duas xícaras recebiam a porção exata e igual do sumo do boldo cultivado na varanda do pequeno lar.
A velhinha fazia juras de amor antes de dormir e sentia o frio envolvê-la, substituindo as pernas do seu amado.
Essa rotina morna era assim. Aquela senhora amava o marido que não existia mais. Amava até não poder, amava com toda sua devoção. Até quando não lembrava de si mesma, o amava.
Cheirava compulsivamente as roupas do velho, lembrando-se do gosto bom de ter amor verdade, de ter carinho e compreensão de carne e osso.
De verdade, pois não mais havia amor e sim o costume de amar, a mania de dizer eu te amo e a saudade de quando o mesmo corpo abrigava duas almas fundidas uma na outra.
Não mais, existia o vazio, a solidão no apartamento cheio de fotos e fantasmas de um tempo bom.
E havia também o gato, ronronando no tapete, avisando que era a hora de tomar os remédios para dormir...
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
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Isso foi muito bom! E não é coisa de velho sustentar hábitos antigos, porque eles são seguros e reconfortantes para qualquer um. Assumir que as coisas mudaram, exige mudança de nós também, mas a inércia é tão boa...
ah, sobre o poema "Isônia"
você pediu pra eu explicar sobre o verso "o eclipse da mente e o despertar da alma".
bom, o que eu penso, é que na magruda, com insônia, a mente em si para de funcionar... sabe? a parte racional do cérebro. E é a alma que fala. Os instintos, os desejos mais profundos.
é o que eu acho :X
Xará *-*
Fantástico.
Para algumas pessoas sustentar uma perda é ir além do que aquela alma pode suportar.
Por que apagar que permanece fervoroso dentro de você, algo que lhe sustenta a vida?
Não é questão de costume, mas de usar aquilo como base para tocar a vida.
Pra que sofrer com a saudade se pode manter o amor vivo ali.
Parabéns mais uma vez menina.
ps: sonho real, rs. eu poderia viver a vida sonhando, se não soubesse que em algum momento eu precisaria acordar.
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Para acalmar geral, verbalize.